Milhões de possibilidades

Aqui para mais um post. Não estava planejando escrever nada hoje, mas o dia está lindo, e quando o dia está assim sempre fico mais motivado para sentar e escrever. Não posso ver, claro, mas posso sentir no ar. Sei exatamente que tipo de dia está fazendo hoje. Quando saio de casa sinto a brisa fresca, a temperatura amena e sol aquecendo levemente meu rosto. Com certeza um dia de poucas nuvens. Os pássaros não param de cantar, e escuto nitidamente um burburinho que rodeia tudo: a casa, a estrada, e a floresta. É um burburinho causado por tudo o que é vivo, e mesmo daqui do escritório as emanações que esse burburinho traz são maravilhosas; sei que as ruas da cidade estão fervilhando de pessoas para lá e pra cá, correndo atrás de seus afazeres, ou apenas andando sem um real motivo além o de aproveitar um dia como o de hoje. A brisa provoca o farfalhar das folhas nas árvores, e é como se elas falassem umas com as outras. Os insetos estão mais barulhentos hoje também, e aquele sonzinho de buzz lá fora, que eles fazem, é um dos meus preferidos.
Lembro de quando era criança; lá pelos meus dez anos, e de como amava dias como esse. E saia correndo, sozinho mesmo, entre as colinas e riachos que se emaranham e tecem esse pequeno paraíso em que vivo atualmente. Lembro de como as cores pareciam mais vibrantes, e da sensação incomparável de me perder por essas bandas, de pés descalços, sem camisa, levando um livro dentro da minha trouxinha para ler debaixo de alguma árvore, ou encostado em alguma pedra fria. 
Voltar para a cidade era um suplício sempre. Era quase como acordar de um sonho lindo e perfeito para a realidade de uma segunda-feira cinzenta. E quando estava longe, só pensava em voltar. Foi por isso que, aos quinze anos, quando comecei a perder a visão, meu maior medo era o de nunca mais voltar a ver aquelas cores, e que, na próxima vez que voltasse, estaria rodeado de escuridão. Infelizmente, como sabemos, foi o que aconteceu. Sofri muito, me revoltei, me isolei. Me sentia extremamente sozinho. Sim, eu tinha o meu pai, minha mãe e meus irmãos, mas quase que podia tatear a tensão em que eles viviam comigo por perto. Não sabiam lidar com minha nova condição. Mas era tudo tão recente que nem eu mesmo sabia. Era como se eu tivesse caído dentro de um poço fundo e escuro e que, por mais que gritasse, ninguém do lado de fora podia me escutar, por mais que tentasse escalar até o topo, só conseguia me ferir e me frustrar. Tinha saído da escola, meus amigos deixaram de me visitar e, posteriormente, de me ligar, mandar mensagens. Não foi um comportamento digno, mas também não os culpo inteiramente. Eu não os queria por perto. Não queria que me vissem tão frágil, dependente… tão inútil. 
Foi o meu avô quem me resgatou de minha casa, dos meus pais e irmãos, dos meus amigos e de mim mesmo. Um belo dia ele apareceu, daquele jeito dele todo austero e vibrante, me mandou fazer as malas o mais rápido possível e, quando perguntei o motivo, obtive apenas uma resposta: Vou te levar para casa. Na hora eu não tinha entendido, mas como meus pais não falaram nada e não demonstravam de forma alguma se importar e, também, como eu não me sentia mais como alguém que valesse a pena ou como alguém que tivesse uma voz ou mesmo o direito de falar, apenas obedeci. 
Meu avô não tinha me falado para onde iríamos, exatamente. Mas percebi que já sabia antes mesmo que a imagem do lugar se formasse em minha mente, e era por isso que me sentia tão nervoso, ansioso e angustiado. Estávamos indo para o sítio, para o paraíso de minha infância, para o mais belo lugar que já existiu em toda a face desse planeta inteirinho. E eu não era mais capaz de vê-lo. Não foi uma época fácil, muito menos agradável, mas foi a época em que mais aprendi sobre mim mesmo, e sou muito grato.
Não sei porque estou aqui falando sobre essas coisas tristes. 
Não, eu sei sim, Sei muito bem.
Foi em um dia como esse, tão vívido, tão agradável, tão cheio de sons e vida que cheguei aqui quando tinha quinze anos. Quando meu avô praticamente me arrastou da casa dos meus pais. 
Quando estava cego. 
Na época eu não tinha a consciência espacial que tenho hoje, mas me lembro de ter sentido desespero por sentir o quão especial era aquele dia e de que eu não poderia fazer nada para aproveitá-lo. 
Em outro momento posso contar a vocês tudo o que aconteceu nesse primeiro dia da minha mudança para o sítio. Hoje meu intuito é outro. Basta que vocês saibam que esse dia mudou a minha vida para sempre.
Quanto ao objetivo desse post: só gostaria de dizer que nossos corações podem nem sempre refletir como a natureza se encontra lá fora; um mente pode estar triste, solitária e perdida mesmo diante de um dia bonito e encantador. Mesmo diante de pessoas felizes e produtivas. E tudo bem. Pode ser que você esteja triste, solitário e perdido, e pode ser que você ache que nada consegue te tirar dessa situação. Mas me prometa uma coisa: que você vai sempre manter em mente que existe uma forma das coisas melhorarem, mesmo que não seja em um dia bonito; que nada é absoluto, e que existem milhões de possibilidades para que tudo possa mudar para melhor. Siga em frente.


Que seus caminhos sejam iluminados.